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Bem-estar

Compulsão alimentar e isolamento social

Saiba o que é este transtorno e como vem afetando os brasileiros em especial durante a pandemia do novo coronavírus.

O isolamento social reduziu as opções de atividades externas prazerosas e de socialização, como encontrar amigos, praticar atividades físicas em academias, ir ao cinema, passear no shopping. Até mesmo o tempo que se passava fora de casa, como na aula, no trabalho ou em cursos, que mantinha as pessoas ativas e ocupadas, diminuiu. O tempo em casa aumentou e as atividades externas se restringiram. A cozinha foi o refúgio de muitos nestes dias conturbados e as idas ao supermercado aumentaram, seja para comprar ingredientes para cozinhar, seja para comprar pratos prontos. O que mais se ouve por aí é que todos "engordaram" um pouco, entretanto, alguns foram muito além e comeram para aplacar a ansiedade.

 

A incerteza que vivemos desde março aumentou o risco de comportamentos compulsivos. E, por mais estranho que possa parecer, a comida é uma das áreas com maiores riscos de adição pois, diferente de outras compulsões, como uso abusivo de álcool e o vício do cigarro, já que comer é necessário para a manutenção da vida e, por isso, socialmente aceito. 

 

A médica psiquiatra Malu Joyce Macedo explica que os excessos podem acontecer tanto na frequência como na quantidade de alimentos ingeridos. “É justamente em momentos de estresse que as pessoas acabam abusando no consumo de preparos mais ricos em gordura e açúcar, que oferecem um prazer maior, apesar de serem pouco saudáveis” salienta a médica. 

 

O que é compulsão alimentar?

 

“Compulsão alimentar periódica, também chamada de transtorno da compulsão alimentar, é uma doença caracterizada por episódios recorrentes - de pelo menos duas vezes por semana - de ingestão de grande quantidade de comida num período de até duas horas, acompanhado da sensação de perda de controle sobre o quê ou quanto se come”, descreve Malu. Segundo a psiquiatra, apesar de se sentirem mal e culpadas após o episódio de descontrole, nesse tipo de transtorno as pessoas não adquirem práticas compensatórias. "Ficar muito tempo sem comer ou forçar a expulsão não natural do alimento são comuns na anorexia e na bulimia, que são males graves e diferentes da compulsão", distingue a médica.

 

Malu lembra que exagerar uma ou outra vez, em situações especiais, faz parte da vida de qualquer um. “O problema está quando o comportamento alimentar compulsivo vira uma regra em vez de ser exceção, e começa a trazer prejuízo para a vida da pessoa”, reforça, enfatizando que os prejuízos podem ser físicos ou emocionais.

 

  • Os danos físicos envolvem ganho de peso em curtos períodos de tempo, alteração de exames laboratoriais e risco de desenvolvimento de doenças como hipertensão, diabetes e alta do colesterol.

  • Os danos emocionais vão desde piora da autoestima, sintomas depressivos e sentimentos como vergonha, angústia ou culpa depois do episódio de compulsão. 

 

O diagnóstico deve ser feito por um médico e envolve a avaliação de vários fatores da vida do paciente, como o padrão alimentar, o tempo dos sintomas, o histórico familiar, a presença de outras doenças ou uso de medicações que possam influenciar no apetite, que juntos vão gerar um planejamento de tratamento adequado para cada caso.

 

Na suspeita de compulsão alimentar - e não de uns quilos a mais por conta do isolamento social - o correto é buscar ajuda profissional. “O tratamento envolve uma equipe multiprofissional, que costuma contar com endocrinologista, psiquiatra, psicólogo e nutricionista. Mas qualquer apoio com um desses profissionais já é um excelente começo. Inclusive um clínico geral pode dar importantes orientações”, indica a médica. 

 

Agora, para aqueles que apenas se excederam nos doces e nos carboidratos, Malu indica a organização de uma rotina simples, baseada no planejamento das refeições da semana, evitando improvisos. Assim se prioriza a despensa com amplo sortimento de alimentos saudáveis. "Tentar se proibir de pensar em guloseimas, por exemplo, não funciona. O segredo é substituir aos poucos os nossos pensamentos de deseho por alimentos pouco nutritivos por outros mais saudáveis", esclarece a psiquiatra. Tudo isso sem esquecer que momentos de estresse e de tédio não devem ser resolvidos com comida, mas sim combatidos com passatempos, interação com amigos mesmo que por meios digitais, atividade física mesmo que em casa, meditação, yoga, leituras e séries. 

 

Sinais comuns de quem sofre de compulsão alimentar:

  • come mesmo quando não se está com fome;

  • come super rápido;

  • come grandes quantidades;

  • come até se sentir estufado;

  • come escondido.